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Uma
definição de sociologia
Qualquer
área do conhecimento que pretenda receber a denominação
de ciência há que definir o seu objeto de estudo específico
e estabelecer as possibilidades de utilizar métodos científicos
nos estudos desse objeto. Embora as linhas demarcatórias dos objetos
de estudos das diversas ciências sociais não sejam nitidamente
delimitadas, o propósito deste artigo é mostrar uma possível
definição de sociologia e, por esse caminho, o possível
objeto de estudo dessa ciência.
Florestan Fernandes, eminente sociólogo brasileiro, sugeriu certa
vez que a sociologia é a "ciência que estuda os fenômenos
sociais", ou seja, o comportamento social que ocorre entre os membros
de certos organismos sociais como, por exemplo, um agrupamento de abelhas,
de formigas, de macacos ou de homens. É nesses agrupamentos que
os indivíduos conjugam esforços e agem em conjunto para
satisfazer suas necessidades individuais ou coletivas. No organismo social,
o comportamento do indivíduo depende, direta ou indiretamente,
de condições internas ou externas dos organismos. Os indivíduos
dependem um do outro não só para a sua adaptação
ao ambiente natural, mas também para a alimentação,
a reprodução, a proteção mútua, etc.
São esses laços de dependências recíprocas
que fazem da agregação e da associação mecanismos
necessários para a garantia da vida.
O propósito da sociologia é, justamente, estudar a vida
dos indivíduos no organismo social. Compete à sociologia
estudar, especificamente, o comportamento social, ou seja, o comportamento
como parte de "uma rede de interdependência e de interações
sociais" de uma determinada espécie de organismo social. Assim
como a biologia e a psicologia sabem que os processos biológicos
e psicológicos são condicionados pelas situações
sociais dos organismos, a sociologia considera que o comportamento social,
de uma maneira ou de outra, é regulado por mecanismos sociais e
por fatores extra-sociais de natureza biológica e ou psicológica.
A diferença está em que a sociologia concentra sua atenção
apenas nas propriedades dos aspectos sociais da vida. O ponto de referência
da sociologia no estudo dos fenômenos sociais não é
o organismo, sua estrutura e mecanismo, mas a própria teia de interações
e de relações sociais.
No entender de Florestan Fernandes, há quatro níveis de
organização da vida social: biótico, biossocial,
psicossocial e sociocultural. A ordem biótica é a sociedade
ou o aglomerado dos vegetais. Entre os indivíduos que constituem
um aglomerado vegetal ocorrem relações de interdependências
puramente bióticas, produzidas por fatores orgânicos e por
fatores inorgânicos. A ordem biossocial - sociedade de abelhas,
formigas, etc. - existe quando os "organismos dispõem da capacidade,
biologicamente condicionada, de se locomoverem e de interagirem entre
si". A ordem psicossocial - sociedade de primatas como os chipanzés
- envolve fatores orgânicos, psicobiológicos e sociais na
determinação da maneira de viver do grupo. Na ordem sóciocultural
- sociedade humana - "os organismos se tornam capazes de produzir
cultura, de transmiti-la, e de criar, por meio dela, importantes transformações
nos recursos adaptativos condicionados biológica ou psicologicamente".
São esses organismos sociais que constituem objeto de estudo da
sociologia: uma ciência que se ocupa com o estudo da "interação
social dos seres vivos nos diferentes níveis de organização
da vida".
Na legitimação da sociologia como ciência, não
basta definir seu objeto de estudo. É preciso, além disso,
averiguar se seus estudos permitem fazer previsões, generalizações
e definir quais são os seus métodos de análise. Sobre
a possibilidade de generalização dos estudos sociológicos,
há pelo menos duas correntes de pensamento: historicismo e positivismo.
O historicismo considera que o fato social é um fato único,
isto é, manifesta-se de forma singular e que, portanto, é
inútil tentar estabelecer leis gerais capazes de permitir a previsão
sobre a vida social. Nessa visão, a generalização
não seria possível, pois os fatos sociais são constituídos
de idéias, crenças, sentimentos e motivos que variam de
indivíduo para indivíduo e, no mesmo indivíduo, em
contextos diferentes. Entretanto, nesta mesma visão, seria possível
considerar a sociologia como uma ciência, na medida em que se admite
a possibilidade de generalização limitada, isto é,
na medida em que se considera que as generalizações sociológicas
são válidas apenas para um determinado contexto histórico.
O positivismo, ao contrário do historicismo, acredita que é
possível e desejável estabelecer generalizações
no estudo dos fatos sociais. O positivismo acredita que, eliminando os
aspectos subjetivos da ação e utilizando o método
estatístico, seria possível revelar as leis gerais que regem
o comportamento social. Diante da complexidade de seu objeto de estudo,
a sociologia - seja ela histórica ou positiva - se encontra impossibilitada
de recorrer ao método experimental como o faz a física,
a química, a biologia, etc. Ao invés disso, a sociologia
estuda a vida social por meio de métodos alternativos: método
histórico, método comparativo, método do tipo ideal,
método dialético, etc.
por
José Otacílio da Silva
Mestre em Sociologia - UFRGS
Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político
GPCP - UNIOESTE/Cascavel

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